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Robison Souza — Perito em Psicologia Forense
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Estudo Psicossocial e Multiparentalidade: Erros Comuns na Formulação de Quesitos

Estudo Psicossocial e Multiparentalidade: Erros Comuns na Formulação de Quesitos

Assim como no depoimento especial, quesitos mal formulados ao estudo psicossocial em multiparentalidade produzem relatório de pouca utilidade — conhecer os erros mais comuns fortalece a avaliação equilibrada dos vínculos.

Erros recorrentes nesses quesitos específicos

A multiparentalidade — reconhecimento simultâneo de vínculo biológico e socioafetivo, com mais de dois pais ou mães no registro — foi admitida pelo STF (RE 898.060, Tema 622): os vínculos coexistem com efeitos jurídicos próprios. O Provimento 63/2017 do CNJ (consolidado no Provimento 149/2023) regulamentou o reconhecimento extrajudicial da filiação socioafetiva; quando há disputa ou oposição, a questão vai ao juízo, e o estudo psicossocial é determinado para conhecer cada vínculo e o que o reconhecimento significa para a criança. Os quesitos definem o que a equipe vai olhar.

Os erros vêm da importação da lógica de guarda. Pedir que a equipe hierarquize ("qual vínculo é o principal?"), quando o Direito já decidiu que coexistem. Pedir comparação entre os adultos ("quem é o melhor pai?"), que produz relatório de exclusão. Perguntar à criança "quem você ama mais", colocando-a em conflito de lealdade. E ignorar os efeitos concretos do reconhecimento — convivência com cada adulto, alimentos, nome, sucessão — que são o que o juiz precisa regular e sobre os quais o estudo pode informar.

Como formular quesitos tecnicamente úteis

Quesitos úteis pedem descrição de cada vínculo por si: papel de cada adulto na rotina da criança — escola, saúde, cuidado diário, datas importantes —, há quanto tempo e com que continuidade; como a criança se refere a cada um (que nome usa, espontaneamente) e como reage à presença e à ausência de cada um; como cada adulto compreende o próprio papel e o do outro, e se aceita a coexistência; se há conflito entre os adultos e como a criança é exposta; e o que a criança entende, na medida da idade, sobre o que mudaria com a inclusão do novo vínculo no registro.

Sobre os efeitos: qual regime de convivência com cada adulto corresponde ao que já existe e ao que a criança precisa; que necessidades da criança cada adulto atende hoje (base para alimentos, CC, art. 1.694); e como a criança vive a questão do nome. Sobre a escuta: condições, presença de terceiros, método, e se a criança foi informada de que não está escolhendo ninguém.

O impacto de quesitos bem formulados

Quesitos descritivos produzem relatório que serve às decisões reais: reconhecer o vínculo, regular a convivência com cada adulto, fixar alimentos de cada um, definir nome. Um relatório que respondeu "o vínculo socioafetivo é o principal" não serve a nenhuma delas e ainda contraria o STF. Um que descreveu cada vínculo — quem faz o quê, como a criança reage — serve a todas.

Para os adultos, quesitos assim deslocam a disputa de "quem é o pai" para "o que cada um faz e vai continuar fazendo", o que costuma abrir espaço para acordo. Para a criança, é a garantia de não ter de ranquear quem ama.

Por que a lógica tradicional de comparação não se aplica

Na guarda, comparar por dimensão tem algum sentido, porque há decisão sobre residência e tempo. Na multiparentalidade, a pergunta é "este vínculo existe e deve ser reconhecido?", não "qual prevalece?". A comparação é desnecessária e prejudicial: sugere que reconhecer um adulto rebaixa outro, e produz relatório que decide, por via técnica, o contrário do que o Direito decidiu. A Resolução CFP nº 06/2019 (art. 12) veda ao psicólogo o juízo de valor que a hierarquização implica.

O assistente técnico orienta a equipe para a descrição por vínculo e, ao analisar o relatório adverso, aponta como vício a hierarquização — "vínculo principal", "verdadeiro pai", "figura de referência" em detrimento de outra — com quesitos de esclarecimento (CPC, art. 477, § 2º) que peçam a descrição no lugar da escolha.

Exemplos de quesitos reescritos

"Qual vínculo é o principal?" → "Para cada adulto, descreva o papel na rotina da criança (escola, saúde, cuidado diário, datas), há quanto tempo e com que continuidade." "Quem é o melhor pai?" → "Como cada adulto compreende o próprio papel e o do outro, e aceita a coexistência? Há conflito, e como a criança é exposta?" "Quem a criança ama mais?" → "Como a criança se refere a cada adulto e como reage à presença e à ausência de cada um, conforme observado?" "O reconhecimento é bom para a criança?" → "Que regime de convivência com cada adulto corresponde ao que já existe e ao que a criança precisa; que necessidades cada um atende hoje; e como a criança vive a questão do nome?"

Cada reescrita mantém o que o advogado quer saber e retira da equipe a hierarquização que o Direito já afastou.

Quem formula e quando

Os advogados de cada adulto e o Ministério Público (CPC, art. 178, II) apresentam quesitos no prazo de 15 dias da intimação da nomeação do perito (CPC, art. 465, § 1º) ou na primeira oportunidade quando o estudo é da equipe do juízo. O assistente técnico redige ou revisa a lista conforme o caso — inclusão consensual de terceiro vínculo exige quesitos sobre compreensão e efeitos; disputa entre biológico e socioafetivo exige descrição de cada vínculo sem hierarquia e registro da exposição da criança ao conflito.

Revisar os quesitos antes de protocolar leva horas e muda o relatório inteiro — e evita que o estudo decida, por via técnica, o que o STF decidiu de outro modo.

Quesito vago x tecnicamente específico

Quesito vagoQuesito tecnicamente específico
Qual vínculo é mais forte?Que elementos caracterizam a convivência com cada figura parental?
Quem exerce melhor a paternidade?Como cada um exerce responsabilidades parentais concretas?
Deve haver hierarquia entre eles?Que reconhecimento social cada vínculo já recebe?
Qual relação deveria prevalecer?Como cada vínculo contribui ao desenvolvimento da criança?
Cada vínculo descrito por si — papel, continuidade, reação da criança — e efeitos concretos"Qual vínculo é o principal?" / "Quem é o melhor pai?"

Leituras relacionadas

Perguntas frequentes

Por que evitar hierarquização entre vínculos no relatório?
Porque o STF (RE 898.060, Tema 622) fixou que vínculo biológico e socioafetivo coexistem com efeitos próprios; hierarquizar é decidir, por via técnica, o contrário — e é juízo de valor vedado pela Resolução CFP nº 06/2019. O relatório descreve cada vínculo por si e informa os efeitos (convivência, alimentos, nome).
Quem formula os quesitos nesses casos?
Os advogados de cada adulto e o Ministério Público, no prazo de 15 dias da intimação da nomeação do perito (CPC, art. 465, § 1º) ou na primeira oportunidade quando o estudo é da equipe do juízo. O assistente técnico redige ou revisa a lista conforme o caso — consensual ou disputado.
Quesitos genéricos sempre produzem resultado ruim?
Quase sempre. "Qual é o principal?" produz relatório de exclusão que contraria o STF e não serve às decisões reais; "quem a criança ama mais?" coloca a criança em conflito de lealdade. Quesitos descritivos produzem relatório que serve ao reconhecimento e à regulação dos efeitos.
Vale revisar quesitos antes de protocolar?
Sim. A revisão leva horas, muda o relatório inteiro e desloca a disputa de "quem é o pai" para "o que cada um faz" — o que costuma abrir espaço para acordo.
Isso fortalece o reconhecimento equilibrado dos vínculos?
Sim. Relatório que descreve cada vínculo por si, sem adjetivos, dá ao juiz base para reconhecer e regular convivência, alimentos e nome — e resiste a recurso. Relatório que elege um "vínculo principal" é vulnerável e prejudica a criança.

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